Gisele Barros

O corpo cansado da vida moderna

Máquina de escrever amarela sobre uma mesa de madeira com um papel escrito “O corpo cansado da vida moderna”, ao lado de canecas com canetas e materiais de escritório, em uma cena acolhedora e reflexiva.

A Dra. Patrícia Bovolin me convidou para ser editora e colunista do Blog Saúde e Movimento. Achei a ideia interessante. E perigosa também. Porque escrever sobre saúde, no fundo, é escrever sobre a forma como estamos vivendo.

Ela sugeriu que eu começasse com o tema “O corpo cansado da vida moderna”.

Num primeiro momento, minha personalidade mais rebelde quis recusar o tema e escolher alguma coisa que nascesse exclusivamente de mim. Mas, depois de alguns dias pensando, percebi que talvez esse tenha sido justamente o motivo do convite. Porque falar sobre o corpo cansado da vida moderna inevitavelmente me obrigaria a olhar para o meu próprio corpo… e para a vida que tenho levado.

E talvez escrever também seja isso: uma forma honesta de olhar para si mesmo.

Tem gente que acha que o corpo quebra de repente. Eu não acho. Ou melhor… já não penso mais assim.

Aprendi que o corpo vai avisando aos poucos. Primeiro no cansaço que não passa. Depois no sono leve demais, na respiração curta, na dor que aparece sem motivo aparente, na tensão que decide morar nos ombros como quem já não pretende ir embora.

E, no meu caso, especialmente, no pescoço endurecido de sustentar tensões que a alma já não consegue carregar sozinha.

Penso que uma das maiores doenças da vida moderna seja a nossa incapacidade de permanecer em nós mesmos.

Estamos sempre atrasados para alguma coisa. Sempre devendo presença. Tentando funcionar além do limite. E o corpo sente.

Sente a pressa. Sente o medo. E, principalmente, a autocobrança silenciosa que quase ninguém vê.

O CORPO COMO MÁQUINA

Durante muito tempo aprendemos a tratar o corpo como máquina. Como um mecanismo que deveria funcionar sem pausas, sem falhas, sem exaustão. E quando alguma peça começa a falhar, tentamos apenas corrigir o problema para que tudo continue funcionando normalmente.

Alguns culpam Descartes. Eu já culpei também. Mas hoje desconfio que o problema talvez não tenha sido apenas a separação entre mente e corpo. O problema foi termos aprendido a viver como se sentir fosse um defeito e como se o corpo existisse apenas para obedecer.

Talvez seja justamente aí que começamos a adoecer sem perceber.

René Descartes foi um filósofo francês do século XVII que ficou conhecido por uma ideia que marcou profundamente a forma como a sociedade passou a enxergar o ser humano: a separação entre mente e corpo. Para Descartes, a mente representava a razão e o pensamento, enquanto o corpo funcionaria quase como uma máquina. Essa visão influenciou a ciência e a medicina por muitos anos, ajudando no avanço técnico da humanidade. Mas também contribuiu para que, em muitos momentos, emoções, sentimentos e experiências humanas fossem tratados como algo separado do corpo físico — como se fosse possível adoecer sem que a vida emocional participasse disso.

 

Porque, quando passamos tempo demais ignorando os próprios sinais, vamos nos afastando lentamente de nós mesmos. O corpo continua funcionando, trabalhando, cumprindo horários, respondendo mensagens, sorrindo quando necessário… mas por dentro alguma coisa começa, em silêncio, a pedir abrigo.

E talvez uma das formas mais profundas de adoecimento seja essa: perder a intimidade consigo mesmo enquanto, por fora, tudo parece normal.

Talvez saúde também seja isso: voltar a habitar a própria vida antes que o corpo precise gritar para ser ouvido.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

Leia Mais